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Primeiro clube gay da Bahia, Dendê lança uniforme para ‘tirar mancha’ de homofobia

Segundo a Fifa, existem 129,8 mil jogadores profissionais de futebol pelo mundo. Sabe quantos são declaradamente gays? Após breve pesquisa, apenas dois – o australiano Josh Cavallo, do Adelaide United, e o americano Collin Martin, do San Diego Loyal. No Brasil, nenhum. Será mesmo que só existe um homossexual no futebol masculino? Ou a comunidade LGBT+ não gosta do esporte? Nem uma coisa, nem outra.

O problema é outro: a homofobia, o 12º jogador da modalidade mais praticada no mundo. Mas o jogo está virando. Em Salvador, o Dendê Futebol Clube nasceu para fazer gols e mostrar que o futebol é para todos. O primeiro clube exclusivamente gay da Bahia pede passagem para defender a diversidade e a inclusão.

Criado em 2017, o Dendê quer ser grande. Dedicado ao Fut 7, modalidade do futebol com seis jogadores de linha e um no gol, o clube apresenta neste sábado seu novo uniforme, com direito a dois amistosos na Arena Bela Vista, no shopping de mesmo nome. A entrada é gratuita e o evento começa às 14h30.

Será o pontapé inicial após o tempo inativo por causa da pandemia, além do novo ciclo preparatório para a Copa do Nordeste Gay, que acontecerá em maio de 2022 e valerá vaga no Campeonato Brasileiro Ligay, no final do próximo ano. Contudo, quem vê hoje o Dendê com 30 atletas inscritos e cheio de planos e desejos por títulos, não sabe o quanto foi difícil abraçar esta ideia.

“A ideia surgiu, mas foi difícil reunir a turma. O futebol é extremamente homofóbico e machista. As pessoas ficavam com receio de aderir ao Dendê, pois tinham medo de preconceito, mesmo amando jogar bola. Foi preciso furar essa barreira. Gostamos de jogar bola e resolvemos quebrar este espaço hétero e promover a inclusão”, diz Wellington Santos, vice-presidente e jogador do clube.

Uma dificuldade foi encontrar competições com outros clubes gays. Único no estado, o Dendê era apenas convidado em amistosos e torneios. Foi aí que o próprio Dendê Futebol Clube promoveu a primeira Copa Gay de Futebol Society do Nordeste, realizada em 2019, em Salvador. “Vieram clubes gays de diversos estados do Nordeste. Foi um sucesso e vimos que é possível promover a diversidade no futebol e fazer crescer a inclusão. Saímos do armário”, lembra Wellington.

O Dendê foi eliminado nas semifinais e ficou em quarto lugar. O representante baiano chegou a se preparar para a segunda edição, mas a pandemia parou tudo. O clube retornou este ano, depois do anúncio do Nordestão Gay para maio de 2022 e o Brasileirão em seguida. Como não tem outros times representativos na capital, o Dendê faz amistosos com clubes héteros, além de convites e amistosos fora do estado. No retorno às atividades, os dendezeiros fizeram amistosos no Rio de Janeiro e em Fortaleza, contra outros clubes gays. Em dezembro, existe a possibilidade de fazer mais dois, em São Paulo e Belo Horizonte.

Segundo Wellington, eles não sofrem preconceito quando atuam contra combinados héteros. Pelo menos em parte.  “Sempre somos bem recebidos, mas a turma subestima nossa qualidade. Eles acham que gays não sabem jogar bola. Os héteros têm a ideia de que somos afeminados. Porém, quando eles descobrem que jogamos sério, com vigor, com raça e vontade, ficam totalmente surpresos e retados porque não queriam perder para um time gay. Tarde demais, perderam!”, conta, rindo o riso do deboche.

Torcida 
Presidente do Grupo Gay da Bahia, Marcelo Cerqueira não nasceu com o dom da bola, mas acredita que o Dendê é um avanço para a comunidade LGBTQIA+. “Não sei jogar bola, mas sou torcedor do Dendê, não apenas pelo futebol, mas por tudo que ele representa. É preciso fazer o futebol sair do armário e calçar a chuteira da diversidade e inclusão. É isso que o Dendê faz. Já nasce com história e todo mundo deveria prestigiar o time. Estarei lá no lançamento da camisa”, disse Marcelo, que também torce pelo Bahia, apesar de ter sido Vitória um dia.

“Bom, eu era Vitória. Cheguei até a fazer parte de uma torcida gay que idealizamos, As Imbatíveis, mas não deu certo. Quando o Bahia mostrou ser um multiplicador contra a homofobia no futebol, inclusive lançando camisa representativa, não teve jeito. Virei Bahia”, conta Cerqueira.

Em junho, o Esquadrão lançou a camisa Manifesto LGBT, com as cores do arco-íris e idealizada pela torcida LGBTricolor – está à venda nas lojas do clube. Declarar-se gay numa modalidade tão machista pode significar risco à evolução da carreira ou até à própria vida. Josh Cavallo, do início da matéria, disse que pensa em abrir mão de jogar pela Austrália na Copa do Mundo de 2022, pois no Catar, país sede, a homossexualidade é crime, com até três anos de cadeia. No entanto, no caso dele o risco é mínimo porque o meia nunca foi convocado.

Antes de Cavallo, só um atleta teve a mesma coragem. O inglês Justin Fashanu revelou ser homossexual em 1990. Dali em diante a carreira enveredou por times de baixa expressão e o atleta se matou oito anos depois. Atualmente existe uma fundação com o nome dele que cuida, de forma anônima, de atletas gays, dando suporte principalmente psicológico.

De volta à Bahia, se é verdade que mancha de dendê não sai, o clube quer vestir todos os esportes com as cores do arco-íris. Para 2022, pensa em introduzir novas modalidades, como vôlei e baleado, além de formar uma equipe feminina de futebol. E pode jogar quem quiser. “Se nossa bandeira é a inclusão, estamos de portas abertas para todos. Hétero também joga conosco, apesar de não poderem competir nos campeonatos gays. Mas é só trazer sua chuteira e se divertir conosco. Queremos mostrar que futebol não pode olhar raça, sexo ou religião. O futebol é para agregar, não excluir”, completa Wellington. (Correios)

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